Organizadas Brasil
Colunista Vanderlei de Lima

AS GRANDES CERTEZAS DO TORCEDOR ORGANIZADO

Por Vanderlei de Lima

31/01/2018

Para iniciar a discussão sobre o comportamento violento de alguns torcedores, em torcidas organizadas, é necessário deixar bem claro que o objetivo desta exposição não é fazer um reducionismo de conceitos, ou seja: de buscar uma receita ou pontos de nivelamento que enquadrem pessoas em classificações superficiais, nem dar respostas mágicas a problemas tão graves que vêm ocorrendo.

Portanto, tendo essa ciência, podemos nos valer de conceitos psicológicos – baseados na psicologia social, do desenvolvimento e na psicopatologia de referência psicanalítica – para refletir um pouco sobre o que acontece com esses indivíduos que ocupam, frequentemente (até com certo charme, pois isso também pode ser refletido a partir dos conceitos que serão expostos), grande espaço na mídia.

Quando observamos a atuação desses torcedores brigões ou os escutamos, nos deparamos com questões perturbadoras: – Por que ele nunca está errado? – Todos estão sempre contra ele? – Onde está sua compaixão pelo outro? – Raciocinam de forma tudo ou nada: “o adversário é meu inimigo, estou em campo de batalha, defendo o meu time e a minha torcida até morte”.

Essas são algumas características de uma estruturação que nos leva a pensar se tratar de indivíduos com uma forma sociopática de atuar. E o que é isso? – Procurando uma definição simples, em dicionário, lemos: Sociopatia ou psicopatia, diz-se de indivíduo de personalidade psicopatológica e de comportamento antissocial, ao qual falta senso de responsabilidade moral ou consciência.

Assim, fica um pouco mais clara a definição para eles. Trata-se de pessoas que não são capazes de internalizar simples regras ou normas, pois possuem uma forma de enxergar o mundo bastante infantilizada, com poucos recursos para o enfrentamento das situações. Como crianças birrentas, agem de forma egoísta. Não se envergonham e ainda se colocam como vítimas das situações, teatralizando-as muitas vezes.

O indivíduo que tem sua personalidade dominada pela sociopatia não sente culpa e sequer se arrepende de seus atos. Geralmente é tido como maldoso e cruel. Freud, na teoria psicanalítica, desenvolveu também o conceito de mecanismo de defesa: é a manifestação que o componente psíquico chamada de ego precisa utilizar diante das outras instâncias conhecidas como id e o super ego.

O id é a instância da fonte da energia psíquica e diz respeito àquilo que nós temos de mais inconsciente e instintivo. Funciona somente sobre o princípio do prazer. Não conseguindo esperar, busca soluções imediatas para as tensões. Ele não aceita frustrações ou inibições, por isso, por vezes, temos de utilizar de nossos mecanismos para barrá-lo, a fim de conseguirmos conviver na sociedade – com respeito e regras – de forma adequada.

Nos sociopatas, esse mecanismo acontece de modo muito desequilibrado. Eles utilizam, com excesso, de uma estrutura de defesa, que não cerceia o id, logo seus comportamentos aparecem de forma a provocar neles a desautorização de seus atos: agressividade, carência e impulsividade. Buscam construir o seu mundo ideal: um lugar onde não haja impedimento algum para aquilo que lhes dá prazer. 

Para isso, vão a ambientes onde tenham chance de manipular situações e grupos a fim de que seus objetivos fantasiosos sejam alcançados a qualquer custo. Existe uma incidência de apenas 1% desses indivíduos na população, porém, em alguns locais ou situações, a taxa aumenta em razão de ser o cenário perfeito para atuarem.

Poderíamos aqui expor inúmeras informações e discutir, imensamente, sobre os sociopatas. O que, no entanto, queremos deixar claro é que esses comportamentos não são naturais. Ao contrário, são passíveis de uma busca aprofundada – por quem de direito – de ações mais estruturadas que tentem encontrar soluções plausíveis à ação malévola desses indivíduos, inclusive entre torcedores organizados, foco deste artigo.

Cáren Vian Cerezer é psicóloga (USF); Vanderlei de Lima é filósofo (PUC-Campinas). 

Vanderlei de Lima é professor, filósofo, com curso de Extensão em Direito e Punição pela PUC-Campinas, autor de livros sobre Organizadas e dirige a TOPPAZ, Torcida Organizada Pela Paz, toppaz1@gmail.com.

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