Organizadas Brasil
Colunista Vanderlei de Lima

MINHA VISITA À TORCIDA FÚRIA INDEPENDENTE

Por Vanderlei de Lima

14/05/2017

Para colocar em prática um projeto de conhecer e, posteriormente, escrever algo sobre uma dentre as tantas torcidas organizadas de nosso país, dirigi-me a Campinas (SP), no dia 3 de agosto de 2010, a fim de visitar a sede da Torcida Fúria Independente (TFI), que defende a bandeira do Guarani Futebol Clube (GFC), campeão brasileiro em 1978.

Os preparativos dessa visita foram longos, pois desde fins de maio queria estar lá, mas, por ruídos de comunicação, não conseguia. Finalmente, no sábado, 31/07, quando liguei para desistir do intento, falei com o Diego (Gnomo), atual presidente da Torcida, e agendamos uma conversa para segunda-feira, às 10 horas da manhã. 

Conforme combinado e segundo meu estilo de pesquisa, simples e informal, cheguei por volta das 9h40 à Rua Barão de Pirapitingui n. 275, Vila Industrial, sede da Torcida Fúria Independente, que fica ao lado esquerdo de quem passa no sentido do fluxo de veículos que, a continuar o trajeto, passará obrigatoriamente pela Avenida Sales de Oliveira. 

Trata-se de um bom imóvel alugado com uma porta corrediça estilo comercial. Outra porta comum antecedida por uma grade com cadeado e, à esquerda do visitante, um guichê que, talvez, sirva à venda de materiais aos torcedores. Curiosa é a ideia passada ao visitante de que tudo é muito bem fechado e protegido, assomado ainda a uma plaqueta avisando o transeunte atento de que ele está sendo filmado. 

Passados alguns minutos das 10 horas, surgiu a pé, na rua, um rapaz de cerca de 20 anos trajando calça jeans, blusa com capuz e tênis bem amarrados que, andando decididamente, passou por um bar próximo, cumprimentou de modo rápido, mas pegando pela mão, dois homens de terceira idade que ali bebiam algo e continuou seu percurso. Passou por mim, que estava encostado na parede, com uma cara de poucos amigos, dirigiu-se, sem cumprimentar-me, à entrada com grade e pôs-se a abri-la destrancando o cadeado e depois a fechadura da porta, não sem antes pegar uma carta de cor azul marinho, mais parecendo um folheto-propaganda, ali depositada. 

Na dúvida se ele me notara ou não, perguntei: “É você quem vai atender-me?”, ao que ele, ainda de costas e preocupado com a porta não tão fácil de ser aberta, respondeu: “Sim, espere um pouco”. Realmente em minutos, ele me convidou para entrar, trancando a seguir com o cadeado a grade e deixando aberta a porta de ferro, de modo que era possível ver, durante a conversa, o pequeno movimento de veículos automotores e pedestres na Barão de Pirapitingui. 

A sede é interessante para o visitante que, logo ao entrar, se vê num grande salão com um barzinho à frente e ao lado, depois de um compartimento, um sanitário perto do qual está uma pequena mesa de snooker e, mais próximo da porta, depois de outro sanitário, uma loja com objetos da torcida, especialmente uniformes (“os panos”, como se diz popularmente), enquanto do lado oposto ao da loja, vê-se um altarzinho com imagens de vários santos como que protegendo o acesso à sede, além de pôsteres nas paredes. 

O Diego preparou, então, uma mesa de plástico e duas cadeiras, dizendo-me, com segurança e perspicácia: “Prefiro sentar de frente para a porta”, o que ele o fez e, desse modo, iniciamos a conversa de cerca de uma hora e meia sobre vários assuntos importantes. Como jovem presidente da Fúria, falou de seu namoro, de seus estudos universitários, de seu interesse, desde criança, por várias modalidades de artes marciais, atualmente o muay thai que é, aliás, 17 junto com os radinhos nextel, a febre do momento entre os torcedores mais novos de organizadas diversas. 

Ele se mostra feliz, pois chegou ao topo de uma torcida organizada, que é a presidência da entidade surgida em 1995 e reconhecida como Grêmio Esportivo Cultural Torcida Fúria Independente em 2004. Na instituição, com o lema do diálogo e do respeito para com todos a fim de ser respeitado, ele parece ter o apoio da imensa maioria dos filiados que chegam à cifra dos 8 mil, garantindo à Fúria ser a maior organizada do interior do nosso país. Daí pensa Diego em incrementar a presença da torcida nas ruas (“as pistas”, em linguagem das organizadas), nos estádios e, especialmente, visa a fortalecer as campanhas de solidariedade para com os menos favorecidos ou prejudicados por catástrofes naturais. Enquanto fala, o presidente da Fúria olha firme para o seu interlocutor recordando a infância e a adolescência cheia de confrontos com adversários de torcida nas ruas (pistas) de Campinas. 

Dentre os muitos assuntos tratados – que o (a) prezado(a) leitor(a) conhecerá em nosso livro a ser lançado em breve – falamos a respeito da Lei 12.299/10, do presidente Lula, denominada “Estatuto do Torcedor”, que nasceu doente, segundo órgãos da Imprensa, e para Diego, pouco traz de novo. Ora, com ele concorda o sábio jurista brasileiro Dr. Luiz Flávio Gomes ao escrever que “A nova lei, afora suas aberrações e simbolismos, sendo mais um fruto do populismo penal brasileiro, na medida em que não veio acompanhada de medidas preventivas concretas, constitui mais uma deslavada enganação, que vive da exploração da crença de que mais leis punitivas é a solução ‘definitiva’ para os problemas da insegurança” (Gazeta Amparense, 05/08/10, p. 02). Infelizmente, a partir dessa lei, ou antes, dela, alguns falam sobre torcidas organizadas sem bem saber o que estão dizendo.

Depois de tomar um suco de sabor laranja, que o presidente da Fúria me possibilitou escolher na variedade de bebidas não alcoólicas que havia, propus a ele que fizéssemos uma oração a fim de agradecermos a Deus a proveitosa e variada conversa – que este artigo oferece uma pálida ideia –, a forma como fui recebido e, especialmente, pedir a Deus a paz nas ruas (pistas) e nos estádios, assim como rezar também por todos aqueles que morreram em confronto de torcidas (da Fúria ninguém foi morto), sejam elas A, B, C ou D, e pelas famílias enlutadas. 

Feita a prece, em clima de silêncio, respeito e piedade, despedimo-nos encerrando, assim, a minha primeira visita à sede da Torcida Fúria Independente, em Campinas, com a confirmação de que antes de elogiarmos ou criticarmos algo ou alguém precisamos conhecer melhor a pessoa ou a instituição em questão. Fora disso, muito do que se divulga é mero papo furado.

(É com alegria e gratidão ao Diego (Gnomo) que recordo aqui o fato para todo o Brasil). 

Vanderlei de Lima é professor, filósofo, com curso de Extensão em Direito e Punição pela PUC-Campinas, autor de livros sobre Organizadas e dirige a TOPPAZ, Torcida Organizada Pela Paz, toppaz1@gmail.com.

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